Eles são muitos, são pequenos, informais e parecidos. Os microempreendedores do Agreste de Pernambuco se espalham numa velocidade grande. Em 14 municípios, o cenário é quase o mesmo: casas com máquinas de costura, peças de vestuário amontoadas e gente com linha na mão. Entre 18 mil e 20 mil microempresas produzem 800 milhões de peças por ano. A reportagem Mãos que produzem conta, hoje e amanhã, a história de como esse polo se formou no meio do nada. Os textos são de Viviane Barros Lima e as fotos de Guga Matos.
As mãos são determinadas e talentosas. Elas não param. Passam o dia costurando, tecendo, pregando botões, cuidado dos detalhes de cada peça. Aprendem o ofício quando ainda são pequenas e conseguem alinhavar o desenvolvimento econômico de toda uma região encravada no Agreste de Pernambuco. São mãos de homens e mulheres que sobrevivem entre linhas, tecidos e máquinas de costura. Essas mãos criam moda e produzem peças que concorrem com as importações vindas da poderosa China. São mãos que colocam o polo de confecções do Agreste no mapa da indústria do vestuário brasileira. Oficialmente, o polo é formado por três municípios (Caruaru, Santa Cruz do Capibaribe e Toritama), mas ele já se expandiu para 14 cidades vizinhas como Taquaritinga do Norte, Surubim, Vertentes, Agrestina, Riacho das Almas e Brejo da Madre de Deus. São locais onde as casas abrigam pequenas fábricas de roupas, onde o barulho da máquinas de costurar é contínuo e onde há emprego garantido na indústria dos retalhos.
As mãos de dona Célia Maria Martins de Santiago, 52 anos, já fizeram muito. Começaram na roça colhendo de tudo e ajudando os pais, depois passaram para a safra de café para auxiliar o marido e, há 20 anos, foram para a máquina de costura de onde nunca mais saíram. No início, o serviço era costurar as peças para outras fábricas ganhando comissão. A fase durou 10 anos até que dona Célia resolveu abrir o seu próprio negócio. A pequena fábrica era formada por ela e uma velhinha chamada Maria Brás que costurou até quando as mãos aguentaram. “Era eu e ela fazendo umas roupinhas em uma máquina pé duro. Vivo de roupa, de feira, de costurar há tanto tempo que nem sei contar”, explica dona Célia. Ela não chegou a concluir o primeiro grau. Diz ser quase analfabeta. Virando noite após noite em cima da máquina, conseguiu delinear um destino melhor para seus quatro filhos. Das três meninas, duas estudam direito. A outra tem uma empresa de confecções assim como o seu único filho homem.
Para criar as camisas masculinas produzidas na pequena empresa que hoje emprega 12 pessoas, dona Célia se inspira nas revistas de moda. O sucesso da atual coleção são as blusas de listras que saem do Sítio Queimados, área rural de Taquaritinga do Norte (município situado a 192 km do Recife), para vários Estados do País como Rio de Janeiro, Maranhão e Amazonas. A produção varia de acordo com as encomendas feitas pelos clientes. Ela faz segredo sobre o número de peças fabricadas. Não costuma falar em números e é de natureza desconfiada. Quando menciona o preço das peças aproveita para reclamar da concorrência. A camisa polo adulta custa a partir de R$ 8 no atacado. As de criança custam entre R$ 3,50 e R$ 5. Se aumentar, não vende. O cliente passa a comprar de uma das muitas empresas da região que produzem a mesma coisa. O jeito é ganhar no volume.
A pequena cidade vizinha, Vertentes (a 156 km do recife), com 18 mil habitantes e uma taxa de analfabetismo de 26,7% entre os jovens de 20 a 24 anos, é tomada de confecções. Segundo dona Josefa Maria Ferreira, 53 anos, que tem uma microempresa no município, somente uma das pequenas ruas abriga mais de 15 fábricas chamada de facções pois não são responsáveis pela produção completa da peça, só por uma parte. Uma empresa pega o tecido e corta, a outra costura a peça, uma terceira faz os detalhes bordados e assim uma simples calça jeans ajuda no ganha pão de várias famílias. O aparecimento dos pequenos negócios é recente, não tem mais de cinco anos. Dona Josefa diz que é umas das pioneiras. Há quatro anos, ela viajava 25 quilômetros por dia para trabalhar em uma empresa da cidade vizinha, Toritama. Quando a dona da fábrica faleceu, ela trocou a casinha da sua filha pelas máquinas usadas. O viúvo não entendia nada do negócio. A microempresa de dona Josefa tem hoje 12 funcionários. Entre eles estão dois dos seus filhos e uma sobrinha. É um negócio de família.
O trabalho intenso não garante uma boa renda no final do mês. Depois de pagar os empregados, a energia elétrica, a matéria-prima e o aluguel da casa com paredes descascadas e quente, dona Josefa diz que tira apenas R$ 400 por mês. O que salva a renda da família é a aposentadoria do marido, R$ 600. São 800 peças costuradas por semana. Mesmo assim, ela não desanima, diz que gosta muito do que faz. “O negócio de confecção está no sangue do povo daqui. Passa de pai pra filho. Meus meninos começaram trabalhando em cima de uma máquina de costura com 12 anos. Os jovens aqui só tem essa opção. Só tem emprego nas facções. Eles chegam sem saber de nada e saem profissionais”, garante. Na rua onde as mãos de dona Josefa passam o dia cortando linha e comandando a máquina de costura, existem outras três pequenas empresas. Elas surgem quase toda semana no quintal da casa de alguém ou em uma quartinho alugado. No polo de confecções do Agreste de Pernambuco, o desenvolvimento está de fato nas mãos do povo.
MÃOS QUE PRODUZEM
06/06/2011